Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
"Alberto Caeiro"
Enganando a Solidão... [Porto-2007]
"Autopsicografia"
«O poeta é um fingidor / Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve, / Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve, / Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda / Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda / Que se chama coração.»
-Fernando Pessoa-
Cidade
.
[Porto-2008]
"Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes."
-Sophia de Mello Breyner Andresen-
[Eva Braga Simões, Soprano e Giampaolo Di Rosa]
[Alessandro Bianchi]
[Ansgar Wallenhorst]
[Giampaolo Di Rosa]
[Porto-2011]-
«Às vezes é tão grande, tão rápida, tão abundante
a fluência concentrada de imagens e de frases certas
que se me desenrola no espírito desatento, que raivo,
estorço-me, choro de ter que as perder - porque as perco.
Cada uma teve o seu momento e não pode ser lembrada fora dele.
E fica-me, como a um amoroso a saudade de um rosto amável
entrevisto e não fixado, a memória do meu ser como de mortos,
o debruçar-me sobre o abismo de um passado rápido de imagens e ideias,
figuras mortas da bruma de que elas mesmas se formaram.
Fluido, ausente, inessencial, perco-me de mim
como se me afogasse em nada;
sou transacto e esta palavra, que fala e pára, diz, tem, tudo.»
"Fernando Pessoa"
-
«A alma em mim é expressiva e material.
Ou estagno num não-ser de linho social, ou acordo,
e se acordo projecto-me em palavras como se essas fossem
o abrir de olhos do meu ser.
Se penso, o pensamento surge-me no próprio espírito com frases,
secas e ritmadas, e eu não distingo nunca bem se penso antes de o dizer,
se apenas depois de me ver a tê-lo dito e;
se por mim sonhado, há palavras logo em mim.
Em mim toda emoção é uma imagem e todo sonho uma pintura musicada.»
"Fernando Pessoa"
"Outubro, dez, ..."
.
... «Os mortos! Que prodigiosamenteE com que horrível reminiscência
Vivem na nossa recordação d'eles!»
«Que tristeza a de partir!...de partir e deixar atrás de nós
Não só as pedras da cidade, e as casas e a cidade vista de longe...
Também as memórias antigas, as carícias maternas hoje na sepultura,
Tudo isso parece que ficou aqui, deixado aqui,
e nós indo sem levar isso tudo...»
"Álvaro de Campos"
Desassossego...
.
[Porto-2010] «Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.»
"Álvaro de Campos"
















